quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Meu destino é "porcar"


Crescer em família exageradamente corintiana é uma tortura, acreditem. Uma lavagem cerebral que já começa no dia em que você nasce. Não importa se é menino ou menina: o bonequinho preto e branco, de touca e distintivo, está sempre lá, presente, na porta do quarto do hospital. Só não dá pra segurar a folhagem decorativa das flores que a mamãe ganhou de presente. São verdes, não dá pra tirar ou fingir que não viu.

Meu futuro pai/padrinho torcia pro Verdão. Dizia que era errada a manipulação familiar em nossas pobres cabecinhas em formação. Tão amável, tão amado, até tentou esboçar alguma influência, mas logo foi calado na marra. Ninguém podia correr esse risco.

Fui pra escolinha e lá fiquei amiga do Duzinho. Palmeirense por imposição da família. Mas para o bem de todos (e pela paz mundial da nossa amizade), ele sempre ligou mais para a magia do esporte em si do que para um escudo. E somos amigos há 35 anos. Muito amigos. Virou professor de educação física. Preparador físico respeitado. Só passou pelo Palmeiras para levar seus times para jogar basquete.

Hora do colégio, foi a vez de topar com o Carlão. Tinha tudo para ser um lindo príncipe, louro, alto, olhos azuis. Mas e o Palmeiras, não conta? Sim, mais até do que o aparelho capacete que ele ostentava com pouquíssimo orgulho, na tentativa de conquistar as menininhas, sem sucesso, claro. Eu bem que tentava ajudar, mas o maldito só queria mesmo saber de futebol, mais do que das garotas. Éramos brothers, parceiros, mas vivíamos quebrando o pau por causa de futebol. Fim dos anos 80, sabe como é, o Corinthians numa draga danada, e o Carlão só tirando sarro. Tirou tanto que até quando a gente se separou pra fazer o colegial em escolas diferentes, ele tratou de me mandar um memorável cartão de natal com os seguintes dizeres no envelope:

"À querida amiga Juliana Sérgio Cláudio Antonio Carlos Cléber Roberto Carlos Mazinho César Sampaio Zinho Edmundo Edílson Evair Damasceno"

Tá lá na minha mãe, guardado. Posso provar. E isso porque nem contei as ligações inacreditáveis de pós-jogo. Dessas, perdi completamente a conta.

Mas quando achei que me livraria de mais um palmeirense pentelho na vida, apareceu o Podrão. Arrogante, dono de si, dono da escola, dono do melhor carro, dono das garotinhas. O figura era mesmo apaixonante. Mas, adivinhe só pra que time o desgraçado torcia? E adivinhe só quem estourou um rojão após a maldita imitação do porco do Viola no teto da garagem da minha mãe, ainda nem terminada? Parecia uma sina, inclusive a de desfilar vestida com a camisa do Palmeiras pela escola inteira, pedindo prenda para a formatura. Perdi a aposta. Era 1993. E nem preciso comentar que virei chacota internacional pelo ocorrido. Ah, ele também mandava gentis cartões de Natal com a escalação daquele ano vencedor. Só fez aflorar ainda mais minha repugnância verde, totalmente moldada numa fúria adolescente incontrolável.

E assim se passaram os anos e eu parei de topar com palmeirenses na faculdade, no trabalho. Era uma enxurrada insuportável de são-paulinos apaixonados por Ceni, sua patota e pelo estilo deveras arrogante de ser tricolor. Mas gostei deles, de discutir com eles. São grandes amigos, apesar desse abismo futebolístico que nos separa.

E com a escassez de porquinhos à minha volta, talvez eu tenha esquecido um pouco do quão charmoso é esse dérbi essencialmente paulistano. Tanto que adoro roupas verdes. Bolsas verdes. Sou a única a usar peças verdes lá em casa (e sou massacrada por isso, sempre que a família está reunida e eu dou as caras com minha impecável malinha esmeraldina).

Dia desses fui lembrada por um colega de trabalho do quão mal humorada fico a cada clássico, do quanto vocifero no Twitter a cada lance perdido e do quanto comemoro a cada conquista (isso já tem uns dois anos, que se diga, viu, Carlão?). Mas a saga de "ódio mortal" continua, cada vez que passo na frente do Parque Antártica (que é todo dia) ou quando compro meu leitinho Parmalat sem lactose no supermercado. E assim são quase 35 anos de batalha.

Ah, sobre o título: só tive coragem de parafrasear meu autor preferido porque ele certamente não lerá minhas linhas "porcas" (sem trocadilhos), exceto se for na mesa branca...

1 comentários:

Raphael disse...

Palmeiras e Corinthians não existiriam se não fossem um ao outro. Nem mesmo em sua formação onde parte de um se tornou o outro e na deliciosa rivalidade que só quem está em um dos lados sabe como é. Temos outros concorrentes na cidade como Santos e São Paulo, mas nada se iguala a magia de um Palmeiras e Corinthians. O respeito e a rivalidade amistosa de um com o outro. É claro que em toda briga de irmão surge um dia uma desavença mais forte, uma rusga como na final do paulista 99, mas basta o próximo clássico para que ninguém lembre do passado e só pense no clássico que está por vir.

Nesses 97 anos de história do meu verdão, temos muito que agradecer ao maior arqui-rival. Sem vocês não teriamos alegrias e lições para aprender. Um dia vencendo, noutro perdendo e algumas vezes empatando.
Mas, só quem é Palmeirense sabe como é o "ódio" pelos corinthianos e vice-versa. É aquele ódio que tem uma pinta de amizade (mesmo escondida em algum lugar) que faz falta.