quarta-feira, 21 de setembro de 2011

R.E.M. e um rabisco para sempre

"Sempre que ouvir essa música, lembre-se de mim".

Ainda não sei porque as pessoas fazem isso comigo. Tenho uma memória de elefante, horrorosa, pro bem e pro mal. E sim, claro que vou lembrar pra sempre.

Assim começou minha história com o R.E.M., aquela banda underground americana que assinou um dos maiores contratos da indústria fonográfica mundial, anos depois. Caguei pra isso. Me arrepiei desde o primeiro acorde, o primeiro contato com "Losing My Religion". Era o primeiro colegial. Eu cheia de expectativas sobre como seriam aqueles meus tumultuados (e sensacionais) 15 anos, onde eu já começava (ou achava isso) a trilhar meus primeiros passinhos curtos pra vida adulta.

Quando eu comecei a levar o vôlei "a sério". Quando dei meus primeiros (e perigosos) amassos. Quando decidi que queria mesmo escrever profissionalmente para toda a vida. Quando ganhei um concurso estadual de redação com direito a faixa na porta do colégio em minha homenagem (e morri de vergonha disso). Quando minha maior preocupação do primeiro semestre foi como seria a minha festa de debutante que, a duras penas, minha família conseguiu organizar.

Naquele mesmo ano, conheci a Flávia, que só estudou um ano no meu colégio, mas teve um papel fundamental na minha vida: me mostrar "Green", uma outra obra prima dos garotos da Georgia que eu desconhecia. Roubei o bolachão que era de um dos irmãos mais velhos dela. E nunca me arrependi.

Dali pra frente, passei a idolatrar o R.E.M. com um fervor absurdo, além dos padrões. Mas só consegui conquistar o "Automatic for the People" anos depois, final de 1994, quando minha mãe se enfiou numa dívida fodida pra comprar um 3 em 1 com CD. Não tínhamos. Aquela noite de Natal parecia um sonho. E ela presenteou cada filho com um exemplar. O meu era importado, mas acho que ela nem tinha noção disso.

Meu namorado à época só me avisou, antes de pegar a estrada para passar a noite do dia 24 de dezembro com a família no interior: "Não chora muito. Acho que você terá fortes emoções hoje". E foi mesmo uma das noites mais felizes da minha vida. Passei aquela madrugada inteira ouvindo "Sweetness Follows" no loop. Mal conseguia abrir o olho no almoço tradicional do dia 25. Ele bem que tentou me alertar, pois sabia que eu chorava até em propaganda de promoção no açougue de hipermercado na TV.

Ao mesmo tempo, o R.E.M. virou um tabu entre nós porque ele detestava aquela capa rabiscada.

"Sempre que ouvir essa música, lembre-se de mim".

Ficava meio puto quando eu botava o disco na vitrola, pois achava que eu estava me lembrando do autor da frase profética. Autor esse que eu já nem tinha mais contato.

O tempo passou, o namorado se foi, o disco ficou. As canções também, até mais do que as lembranças.

Arrumei posteriormente um futuro marido que odiava a banda. Achava que o R.E.M. era fraco, pobre musicalmente. Veio o Rock in Rio, fiquei doente pra ir, minha mãe vaticinou: só vai se o Eduardo for com você. Não fomos, claro. E eu fiquei de tromba com ele por semanas, quase um mês, acho. Não me conformava que ele não dividisse comigo essa paixão. Mas me casei com ele, mesmo assim, independente do meu amor secreto por Michael Stipe.

Amor que dividimos bem: quando você sair, ouço meu Black Sabbath. Quando eu sair, você escuta seu R.E.M. E assim levamos.

Chegou 2008. Anunciaram o show em São Paulo. E como uma doce vingança, comprei os ingressos e só avisei depois. Véspera do aniversário dele. Que foi elegante e gentil, apesar do presente de grego, afirmando depois aos amigos que, "para quem gosta, é um puta show".

Eu não dormi na noite anterior. Nem depois. Não conseguia sair daquele transe de ver a banda que eu mais amei nessa minha vida curta de (quase) 35 anos. Tenho até aquelas fotos meio ridículas mordendo o ingresso sagrado na parede da minha sala. Sem a menor vergonha disso.

Numa semana difícil pra mim, o R.E.M. anunciou dignamente sua retirada de campo. Eu chorei muito, sozinha, escondida pra ninguém ver ou rir de mim. Eduardo, meio que sentindo a minha dor, ligou o videogame e tocou "Losing My Religion" pra mim. E eu decidi converter minha tristeza em palavras, só pra variar.

Ah, sobre o autor da marcante frase: tá por aí, tocando a vida, criando filhos lindos e sofrendo como qualquer corintiano minimamente apaixonado. Penso que só alguém adorável como ele é que poderia ter me apresentado uma das maiores paixões da minha vida, já que a minha por ele foi efêmera, embora não menos sensacional.

Sim, magrelo, ainda lembro de você. E lembrarei sempre. Grande parceiro, grande amigo, advogadão, que eu morro de saudades.

Hoje, aliás, foi inevitável não lembrar. Afinal, nem tudo é pra sempre. Mas as canções, essas sim, ficam na alma.






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