Era quase um ritual: minha mãe abria os braços todo começo de semana pra Marcia contar pra ela suas aflições. Era louca pelo Wagner, apaixonadona, mas virava e mexia, brigavam, se separavam. E no ônibus da segunda-feira, rumo ao trabalho, elas confidenciavam os problemas com os respectivos namorados. Era 70 e poucos.
Vizinhas, muito amigas, foram no casamento uma da outra, com os também respectivos parceiros de quem tanto se queixavam mutuamente. O amor é assim mesmo, prega peças.
Coincidentemente, engravidaram quase que simultaneamente. E minha mãe, com seu respeitoso barrigão já passando da hora, foi visitar a Marcia no hospital quando nasceu o Leandro. "Quem sabe essa garota aqui dentro de mim não fica amiga do seu garotão que acaba de nascer?". Mal sabiam elas. Nasci exatamente uma semana depois dele.
Encontros casuais aqui, aniversários ali, fui reencontrar efetivamente o tal garotão aos 6 anos, no primário. Ele era bonitinho, pequenininho, mas um terror. Já dava indícios do quão autoconfiante e falastrão seria, ao longo da vida.
Numa mala velha na casa da minha mãe, os registros da passagem curiosa: fotos minhas e dele em desfiles de 7 de setembro - onde eu era balisa e ele ficava na frente da fila por ser um dos menores da classe -, aniversários, bailinhos, festinhas, formatura.
A gente brigava feito cão e gato. Conservador, cheio de pré-conceitos, vivia se queixando de que eu era "moderna" demais. Ele queria vencer. Eu só queria ser feliz.
E embora nossos objetivos fossem tão distantes, sabe-se lá porque a gente nunca conseguiu se livrar um do outro. O palhaço era tão palhaço que, quando brigava comigo, falava mal da minha magreza, do meu cabelo e cortava as caronas até a porta do colégio - o pai dele me pegava todo dia, pertinho de casa. Até a próxima briga. Até o próximo dedinho de paz. E assim fomos crescendo.
Quando a gente tinha uns 12 anos, apareceu a Andreia. Linda menina. Ele pirou nela. E realmente era uma coisa quase inexplicável: ele não cresceu muito. Ficou baixinho, caricato, e ela parecia uma boneca. E se apaixonou pelo moleque folgado, com aquele bundão de lordose que virou sua marca registrada por anos e anos. Até hoje é lembrado por essa, digamos, deficiência engraçada.
Isso sem contar o fato de que foi ele quem me explicou certas coisas da vida de uma maneira, assim digamos, muito peculiar. Tanto que meu pai, um dia, reclamou: "Quando tiver dúvidas, pergunte a mim, e não ao Leandro". Sensacional. Inesquecível.
E como talvez, nem minha mãe, nem Marcia poderiam prever, os dois ficaram ainda mais unidos na adolescência, no pós. Foram aos casamentos um do outro - no meu, Andreia já apareceu grávida da Clarinha, que hoje já tem 8 anos de pura beleza e simpatia. Depois veio o Lucca, que lembra demais aquela figura engraçada que hoje, eu não vivo sem.
Nesses 35 anos, a gente dividiu paixões e diferenças com a mesma intensidade. E não poderia ser mais adequado: nos chamamos um ao outro de Coração. O Dudu e a Andreia nem ligam, porque entendem bem como a gente funciona. E ainda bem.
Mas, olha, Coração, sonho com o dia em que a gente fizer 60, 70, 80 e vai continuar se amando e se detestando com a mesma fúria. Ranhetando e provocando um ao outro. Vai virar roteiro de filme, certeza. Porque só isso explica.
Amo você, muito. Feliz aniversário pra nós dois.
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