Quase todo mundo disse que era simples, indolor, rápido. E eu não acreditei muito. Intervenções no corpo da gente são, de uma forma ou de outra, uma total invasão. Não permitida. Você não pediu pra nada entrar ali. E também não sabe se volta pra contar a história pros amigos, já que morre um pouquinho quando apaga de vez.
Quem me conhece, sabe bem: odeio que sintam pena de mim, que chorem por mim, que percam tempo comigo. Defeito horroroso, reconheço, mas nessas horas, eu realmente não queria atrapalhar ninguém. Era só o momento de me preocupar em realmente voltar pra rir de tudo, inclusive das pedras que de mim saíram - e que parecem brincos de bijoux de banquinha da Benedito Calixto.
Talvez fosse mesmo uma provação que viraria um presente depois. E eu tive que me submeter, não teve jeito. O que me consola é que tô aqui, vivinha da silva, dolorida sim, porém com mais essa passagem pra contar no bar pra quem quiser ouvir. Afinal, tudo na minha vida é quase tragicômico. Tentar amenizar um chato problema crônico de saúde também é. Afinal, qual a graça de viver 100% o tempo todo?
Eduardo tá sendo incrível comigo. Paciente, preocupado, sente minhas dores. Qualquer respirada profunda, ele acorda, pergunta se estou bem, no meio da noite. Troca curativos. Ao longo desses dias todos de recuperação lenta, só consegui repetir a ele uma frase: "Eu não mereço você".
Minha família é que não tem colaborado muito. Não podem me ver em pé, conversando e choram feito crianças, todos. Pedi à mamãe e vovó que me ajudassem na composição de dieta leve dos primeiros dias e elas capricharam... na falta de bom senso: pudim e carne assada com batatas. Tudo suculento. Tudo em grande quantidade. Só pra eu passar vontade, penso, e assim, continuarem se emocionando com a minha batalha.
Só penso em voltar pro dia, pra rua e recuperar esse tempo que eu considero perdido de fazer nada. Não consigo ficar inativa. Nem nas redes sociais. Defeitão. Outro.
Quem também tem feito uma ótima companhia é "Um Dia", do David Nicholls. Indicação do Maurício Minhoca. Não cheguei à metade e tenho ido às lágrimas com a história de duas pessoas que passam vinte anos tentando descobrir se se amam de verdade ou são apenas grandes amigos. Puta história. Mas espero ter poucos dias pra dar cabo dela.
Novela das seis, um pouco de internet, torrada, chá... tá legal, mas tô louca pra voltar.
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