
Na casa de alguns, se bebe, se samba. Na de outros, ouve-se piano após o jantar, durante o licor. Na minha, costuma-se sofrer nos domingos de futebol. Por tudo aquilo que já contei outras vezes: seja pela minha estreita relação com palmeirenses engraçados, ao longo da vida, ou mesmo pela própria história da minha família, que começa de verdade num convite pra jogar no Corinthians recebido pelo meu avô, que nos deixou há pouco tempo, com quase 100 anos de idade e causos inesquecíveis pra contar.
E sempre me irritou um pouco essa história de sofrimento coletivo e inerente que ronda as lendas corintianas, em especial. E olha que eu, aos 35, tô reclamando disso, imagine só minha avó, que tem 50 anos a mais? Ela diz que tem a receita: andar pelo quintal, meio sem destino, escutar os fogos e tentar adivinhar de quem são, para quem são. É uma forma de amenizar a apreensão que a gente aprendeu a ter desde pequeno, com a paixão desmedida que adquirimos de avô, de pai, de tios.
Cada título, cada vitória ali é motivo de comemoração tamanha que pouca gente entende. Os vizinhos, mesmo acostumados, ainda devem achar que temos sérios problemas mentais. Mas sempre fomos felizes assim, na medida do possível. Ou na medida das conquistas alvinegras.
Os netos cresceram e encontraram formas diferentes de comemorar. Minha irmã do meio, por exemplo, se mandou pro Pacaembu sem nenhum receio. Ostenta orgulhosa uma carteirinha da Gaviões da Fiel na carteira que, guardadas as devidas proporções de discussão das quais também compartilho - daqueles que amam mais a entidade criada do que o clube -, foi a maneira que achou de botar pra fora de algum jeito todo aquele amor em preto e branco. E, tímida que era, se sente uma igual no meio de milhares. Quem sou eu pra julgar?
Meu irmão mais novo costuma tirar do armário uma enorme bandeira onde se enrola todo. Fica na sala sozinho, xingando, vociferando, enquanto assiste à minha mãe aflita fazer comida ou algum serviço caseiro, pra pressão não subir. E quando ganha, ele sai correndo pra abraçar a minha avó, do outro lado da rua. E quando perde, diz que tem vontade de enfiar a bandeira no próprio rabo. É o jeito dele.
Eu, nos últimos tempos, só tenho assistido vitórias e vexames de plantão na redação. Também não deixa de ser uma terapia pra quase cardíacos, já que em casa, quebro cadeira, grito na janela e pareço uma adolescente imbecil, lutando com os vizinhos gente boa que se transformam como eu, no meio de uma batalha futebolística. Cada um torce do jeito que lhe é devido.
Mas ontem, quando tudo acabou, eu sabia que não podia sair do trabalho pra casa de forma ilesa. Tava faltando algo no meu dia difícil, especialmente depois da perda de um dos maiores ídolos do meu pai. Que a essa altura, já deve tê-lo encontrado, inclusive - dizem por aí que é assim.
Não tive dúvida: cheguei na casa da minha avó fazendo buzinaço, gritando. Minha mãe não perdeu tempo, se enrolou na bandeira antiga que o meu pai guardava e, quando vi, estavam as três abraçadas, gritando no meio da sala, como se não houvesse amanhã. E foi uma sensação tão incrível que mereceu registro. Dudu foi muito feliz nisso.
A paixão pelo Corinthians nos uniu e nos unirá pelo resto da vida. E pra que reclamar de um fanatismo exagerado quando se tem o privilégio de dividir calor e abraço com mãe e avó ao mesmo tempo, como eu? Sei que hoje poucos podem sentir o que eu senti: a energia indescritível e cheia de amor de pessoas que só podem e querem nos proteger. E festejar junto, quando a ocasião pede e merece. Taí nosso grito de guerra.
Não tem provocação que apague um momento desses. Nem os pulinhos da mamãe. Nem a gargalhada da minha avó, que tão rara ficou desde que vovô se foi. E podia ser você também, palmeirense, são-paulino, santista... Pouco importa. Seria lindo e eterno, do mesmo jeito. Acredite.
1 comentários:
Você me emocionou, Jú!!!! Não só pela paixão que sinto por esse time, que ontem me fez feliz, mas que por vezes me deixou à beira de uma depressão (Houve ocasião - mais de uma - em que prometi não mais torcer irracionalmente pelo Corinthians. Não cumpri, claro). Você me emocionou porque fez sentir saudades dos abraços da minha mãe e da minha avó. Ambas corinthianas, embora não fossem fanáticas. Ambas longe, muito longe desse nosso mundo... Beijão e ótima semana pra nós!!!
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